Deus em nossa Vida, diante da falta de esperança e fé

03/12/2012 22:31

 

Deus em nossa vida, diante da falta de esperança e fé

 

Por frater Everaldo,scj

 

 

“Quando a vida nos parecer pesada, quando estivermos a ponto de sucumbir à tristeza do desterro, levantemos os olhos e contemplemos a aurora de nossa libertação, porque “este envólucro mortal vai se destruindo pouco a pouco, mas o homem interior renova-se dia a dia[1]””. (2Cor 4,16).

Queridos irmãos e irmãs, em Cristo Jesus, estou convencido de que de fato Deus não nos abandona em hipótese alguma de nossa, vida. Podemos sim, passar um tempo sem ao menos sentir sua presença, ou um longo tempo sem sentir o “doce e suave gosto” de poder contemplá-LO em nossa vida através das marcas em nossa própria alma ou mesmo na criação, mas nunca será porque ele nos abandonou.

Quanto ao fato de não sentir sua presença, alguns santos “experimentaram” esta que chamarei aqui de “amadurecimento[2]”; não quero dizer que todos precisam passar por isto de modo algum, quero afirmar tal fato. Quero apenas lembrar, que muitos passaram, passam e passaram por momentos de tibieza, mas de muito crescimento na busca de fazer a vontade de Deus, mesmo que sem senti-LO. “Estas noites escuras”, nos fazem retornar ao primeiro Amor (chamado à vida), primeiro chamado (ser alguém segundo a vontade de Deus), reencontrar-se com nossa Vocação. (realizar-se como pessoa é, por assim, dizer o por em práxis o projeto de Deus em nossa vida).

Grandes santos afirmaram ou deram a entender que se pode passar por grandes “tormentos” sem perder o desejo puro e ardente de alcançar[3] a graça da santidade, mesmo que haja momentos em que nossa consciência insista em dizer que é muito difícil e que num breve, mas contundente talvez, não sejamos capazes. Lembremos o que diz Santa Terezinha: “O Bom Deus não me inspiraria desejos irrealizáveis, por isso aspiro à santidade[4]”. Biblicamente, podemos dizer que ser santo é da vontade de Deus e sua Vontade: “Sede Santos, porque Eu Sou santo[5]”. (Cf. 1Pd 1,16-15; Lv 11, 44.45; 19,2).

Dentre tantos santos que passaram por essas experiências de tibieza, gostaria de citar apenas um ou dois, São João da Cruz[6], o que dizer de alguém que esta preso, no cárcere de uma prisão, (obviamente) e escreve uma obra poética-mística à qual recebe  nome de “noites escuras da alma[7]”?

Não há duvida que tenha passado por momentos de quase desilusão, da sua fé. Não sentir a presença de Deus numa circunstância assim, sem dúvida não é difícil de imaginar, para quem já teve o gosto de desfrutar da excelente leitura sobre a vida deste Santo insigne Mestre Espiritual, para tantas gerações.

Outra Santa, providentemente, também Carmelita, e ainda mais recente é Santa Tereza Dos Andes[8], tal qual são João da cruz esta Santa do Século XX, não viveu somente o gozo espiritual, mas enfrentou diversos desafios em sua “curta-longa vida[9]”, quase vinte anos de vida, entra no colégio, internato, onde passa boa parte de sua vida, e posteriormente entra para o convento, aonde ainda muito jovem, nos dizeres de hoje em dia[10], parte para a morada celeste.

Não obstante desde o colégio tem que suportar as provações quase que tais quais diz São Paulo: “vejo o que é bom e faço o que é mal”. (cf. Rm 7,19). Isto é visto em sua Biografia e cartas, mas também no filme que bem faz ressaltar que os santos também tiveram grandes desafios para “alcançar” a graça da santidade.

Desde o colégio ela, Juanita dizia a Madre Duboz[11], que não conseguia fazer sempre o bem as “amiguinhas” do colégio; lembra-se que seu maior desejo ser “escrava de Jesus[12]” para fazer unicamente a sua vontade, vontade de Cristo, ser extremamente humilde e ser santa, ideal que nunca saiu de sua cabeça e que, no entanto, não aceitava ganhar se quer um BOM-BOM menor (inferior) ou uma Balinha, enquanto suas coleguinhas ganhavam Bombons. Reagia com extrema “irritação” que a própria desconhecia a ponto de dizer: “Não sei o que há comigo, quero ser Boa, ser Santa, mas desagrado a Cristo e as outras colegas de escola por coisas tão simples, que penso que não conseguirei ser Santa”.

Sucedeu-lhe perceber-se repetidas vezes “orgulhosa”, que certo dia sua Madre Superiora lhe disse, já talvez “cansada” de ouvir as mesmas reclamações e lamentações dela: “Juanita, vá estudar e não se preocupe com a Santidade, pois não somos nós que nos fazemos Santos, é Deus que o faz e Ele o faz à sua maneira[13]”. Ao que ela certamente de cabeça baixa se retira da sala da superiora, talvez sem entender, mas possivelmente com um grande alívio que mais tarde irá compreender que assim o era preciso ouvir tal exortação.

Desta feita, devemos ser de fato sinal, de esperança, mas para tanto, devemos alimentar nossa esperança. Só e, então, seremos capazes de transmitir às pessoas desesperançosas deste Mudo, e com este mundo, que há algo de Bom no Mundo pelo qual vale a pena doar a vida.

Lembro-me aqui do que diz o Sam ao “seu senhor” Frodo, na saga cinematográfica “O senhor dos Anéis”, quando diante da situação que parecia não haver mais nada ao seu alcance a fazer, Frod diz, lamentando-se: “Não Sam, o mal já toma conta de tudo, não mais nada que possamos fazer[14]”; sob a qual responde Sam que cultivava uma admiração grande por seu senhor, e geralmente balbuciava para lhe dirigir algumas palavras, desta vez lhe responde subitamente sem refreio, ainda que diante de uma “guerra”: “Não senhor Frod, o fim não pode ser assim; pense em todas as pessoas que deram a vida antes de nós? Aquelas pessoas deviam ter visto algo de muito valor, algo que valesse a pena dar a vida. Não pode ser uma ilusão este mundo, tem que haver algo que valha a pena lutar. Força senhor Frodo![15]”.

Deixemos esta frase animadora de Sam, repercutir em nossa vida, e voltemos a vida de tantos santos reconhecidos ou não pela Igreja, não nos resta outra coisa que em meio a este mundo tenhamos que suportar tais cargas, provações e dificuldades, e, sobretudo entre clamores e lagrimas que certamente não faltarão, pois a vida é um grande desafio, que se deve encarar e viver na esperança, pois ter esperança é ter fé e ter fé é como diz São Paulo: “A fé é um modo de possuir desde agora o que se espera um meio de conhecer realidades que não se vêem”. (cf. Hb 11,1).

Estou convencido de que se queremos ser sinal de algo Bom para as pessoas devemos primeiramente acreditar que elas são boas ou podem se tornarem boas, ainda que seja, necessário dedicarmos mais tempo à Oração, por elas, ou muitas de nossas orações, sejam voltadas para intercessão dessas pessoas.

Lembro-me, por exemplo, o quanto Santa Mônica rezou pela conversão de seu Filho Santo Agostinho[16], 28 anos, de Orações; não sejamos ingênuos de imaginar que esta Santa mulher ficou todo este tempo de joelho orando pelo filho, mas que constantemente não deixava de pedir ao Bom Pai, como diz Santa Terezinha que tivesse piedade de seu filho, ou como ainda diz Santa Terezinha, “lembrar-se de quem se ama e Rezar pela pessoa[17]. Então certamente ela rezou sim todo este tempo pelo filho, visto que uma verdadeira mãe não esquece jamais do filho que sofre, ainda que a seus olhos.

Haja vista, que dito isto é preciso lembrar que pouco importa que soframos, nãoque Deus se agrade de nosso sofrimento, jamais, pois um Deus amor não pode se agradar do sofrimento do filho, do contrário, se eu cresse nisso, como poderia eu dizer que Santa Mônica rezava constantemente ao lembrar-se de seu filho em sofrimento? Perdido nas coisas do Mundo.

Ela que é mulher[18] sabia o que era bom a seu filho, “quanto mais nosso Pai celeste sabe o que é bom para nós[19]”, por isso pouco importa se soframos algumas fadigas, alguns trabalhos na terra que não nos agradem, ou algumas acusações que nos façam se sentir abandonados por Deus, pois nós passamos e não temos aqui morada permanente, então, repitamos com o salmista: “Espera mais um pouco, um instante e vê-lo-ás, mais um instante e não mais nos separaremos Dele, Cristo”. (cf. Sl 136,1; Jo 16,19).

Se recebemos julgamentos inválidos, porque, perturbar noss”alma? Porque ficar triste e abatido quando a alegria no que se espera é muito maior do que tudo se pode dizer nesta vida?

Temos que ser luz, temos que ser humildes, e não devamos nos preocupar se acaso cairmos, mas devemos nos preocupar-se logo em levantar-se, pois a graça passa. E como ouvia eu, recentemente num retiro formativo do qual participei, “temos que ser sentinelas da nova aurora[20]” e estou convencido que não devemos ficar aborrecidos se por ventura não tenhamos sido sentinelas para apanhar a graça a Boa Noticia para nós, mas sim se não pudermos apanha-la para transmitir aos outros. Isto sim deve ser o maior motivo de não ter sido sentinela na hora certa, de ter deixado Cristo que passa com a Boa Noticia e não a colhemos para anunciar aos que estão na cidadela.

Enfim é preciso perguntar, se onde está Deus em nossa vida e se o queremos como alguém que esteja repleto de poder para satisfazer as nossas vontades “mesquinhas” e “egoístas” ou se o deixemos ser Deus e tenhamos plena confiança nele? Como convém aos que crêem. Deixar Deus ser Deus e estar dispostos a fazerem sua vontade, ainda que por momentos não sintamos sua presença marcante em nossa vida, mesmo que alguns nos pisem e falsifique contra nós, nossa esperança deve estar viva, forte e serena em Deus Pai, que tudo pode e tudo faz em nosso favor.

Estou convencido de que é preciso rezar mais, a cada dia, os se as dificuldades aumentam, então, devamos ser mais firmes na fé, pois sabemos em quem depositamos nossa esperança. Em Cristo Jesus.

Então, “quando a vida nos parecer pesada, quando estivermos a ponto de sucumbir à tristeza do desterro, levantemos os olhos e contemplemos a aurora de nossa libertação, porque “este envólucro mortal vai se destruindo pouco a pouco, mas o homem interior renova-se dia a dia[21]””. (2Cor 4,16).

Na fraqueza é que sou forte, quando ela me leva a ser mais fiel e assíduo na vida de Oração, serei mais humilde e coirmão, se perseverar na Oração. Assim que Deus permanece em nossa vida, alimentamos nossa fé e esperança. Num ato de confiança.

 


[1] Imitação de Cristo. Paulus. 2000. 24ª ed. p. 346/7. [Conselhos do Cardeal Henrique Henriques].

[2] Amadurecimento = porque considero estes momentos tíbios em momentos de grande e inigualável crescimento na vida espiritual de quem quer se deseja de fato viver e experiênciar Deus em sua vida.

[3] Alcançar = não deve ser entendido aqui que consigamos a graça de Deus por méritos nossos, pois se assim o fosse; poderia eu exclamar “Ai de mim, Senhor, meu Deus, sou finito buscando o infinito, e não mereço tudo o que fazes a meu favor”! Mas deve ser entendido, como a participação e esforço de cada dia para vencer o mal, os desafios que aprecem na vida e em hipótese alguma como se não dependesse nada de nos, mas como se tudo dependesse de nós e tudo dependesse de Deus, que de fato o é.

[4] Santa Terezinha. Obras Completas. Paulus. 2ª Ed. (Manuscritos “A”).

[5] Cf. 1Pd 1,16-15; Lv 11, 44.45; 19,2.

[6] São João da Cruz.  1542 -  1591, foi um frade carmelita espanhol, famoso por suas poesias e escritos místicos e que foi proclamado 26º Doutor da Igreja pelo Papa Pio XI. Reconhecido de uma vida reta e santa pelas confissões religiosas da: Igreja CatólicaIgreja Anglicana e Igreja Luterana.

[7] Noite Escura da alma, porque a escuridão representa as dificuldades da alma em desapegar-se do mundo e atingir a luz da união com o Criador. A idéia principal do escrito poético-místico pode ser vista como sendo a dolorosa experiência que as pessoas têm de suportar ao buscar crescimento espiritual e a união com Deus. O poema foi escrito no período em que São João da Cruz esteve preso, devido a diversas circunstancias em sua Ordem e sem duvida do seu envolvimento pessoal com tais desafios.

[8] Santa Tereza Dos Andes. Nasceu em Santiago no Chile a 13 de Julho de 1900. No Batismo foi-lhe dado o nome de Joana Henriqueta Josefina dos Sagrados Corações Fernández Solar. Familiarmente era conhecida, pelo nome de Juanita. Faleceu em 12 de abril de 1920. (obviamente sem completar 20 anos).

[9] Curta-longa vida, porque me vêm a mente os dizeres da Santa Terezinha, quando escreve, que a vida neste Mundo é por assim dizer, um deserto longe de Deus. Providentemente outra Santa Carmelita.

[10] Dizeres de hoje em dia: digo isto porque a minha fé nãodeixa ter medo da morte, visto que a exemplo dos grandes santos, não considero a vida longa (cronologicamente) a melhor vida, mas a intensidade com que se vive o breve espaço de tempo neste Mundo, ainda que entre quedas e recomeço. Para isto existe o Sacramento da Confissão (penitencia) que infelizmente muito não buscam, ou não creem mais. Eu creio e nele, por ele me renovo a cada vez. Quase que tornando nova criatura em Cristo, até que Cristo seja todo em mim e eu Nele, como diz são Paulo. (cf. Ef 1,10) a fim de que Cristo seja tudo e em tudo (cf. Col 3,14).

[11] Reitora do colégio onde estava Juanita, (posteriormente Juanita será Santa Tereza dos Andes).

[12] Escrava de Jesus = nos dizeres de Santa Tereza dos Andes é ser como Maria, viver para fazer a vontade do Pai, por meio da participação na paixão de Cristo. É o “Ecce ancilla” de Maria.  Segundo Lucas: “Dixit autem Maria ecce ancilla Domini fiat mihi secundum verbum tuum”. (cf. Lc 1,38).

[13] Não se pode entender em hipótese alguma, que nós devamos perder o foco da Santidade, pois não desleixa de um ideal de vida plena. Nem tão pouco não luta com todas as forças pelo mesmo.

[14] O Senhor dos Anéis III. “O retono do Rei”.

[15] Idem.

[16] Aurélio Agostinho de Hipona, conhecido como Santo Agostinho. Tagaste (África), 13 de novembro de 354 - Hipona28 de agosto de 430, foi um bispoescritorteólogofilósofo e é um Padre latino e Doutor da Igreja Católica. Recomendo aos que se dão o Bom gosto da Leitura, ler ao menos uma de suas obras “CONFISSÕES”.

[17] Santa Terezinha. Obras Completas. (N.B. Sugiro também a leitura deste Livro).

[18] Mulher = aqui entendida como pessoa humana, e não no sentido de diminuição, de ser a última a desejar coisas boas, mas sim porque é humana, significa aqui toda a raça-gênero humano.

[19] Evangelho de Hoje dia 11 de outubro de 2012. (cf. Lc. 11,1-13)-[v.13].

[20] Artigo Publicado em Testimoni, 15 de setembro de 2010 e traduzido por Pe. Odilo A. Leviski,scj. (Apresentado e orientado para nós fratres por Pe. Adalto Chitolina,scj)

[21] Imitação de Cristo. Paulus. 2000. 24ª ed. p. 346/7. [Conselhos do Cardeal Henrique Henriques].